Construção nova
Casa erguida do zero, da fundação ao telhado. O valor do terreno fica de fora — terreno é aquisição, não obra.
- BaixoR$ 1.800 a R$ 2.500/m²
- MédioR$ 2.500 a R$ 4.000/m²
- AltoR$ 4.000 a R$ 7.000+/m²
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Meu Tetto · guia do dono da obra8 capítulos
Você não precisa virar engenheiro. Precisa saber se está pagando o preço justo — e ter onde olhar quando a dúvida bater.
Preço justo
A pergunta: “quanto custa construir uma casa por m²?”
Você já perguntou isso para três pessoas e recebeu três números. Um pedreiro falou em R$ 2.000 o metro. Um cunhado falou em R$ 5.000. Um vídeo no YouTube falou em R$ 3.200 e não explicou o que estava dentro do valor. Nenhum dos três mentiu — eles só estavam falando de obras diferentes, com acabamentos diferentes, em cidades diferentes, e provavelmente somando coisas diferentes.
Existe referência pública para isso. O CUB, publicado mensalmente pelos SINDUSCONs de cada estado, a CBIC e o INCC da FGV acompanham custo de construção no Brasil há décadas. O que eles publicam não é um número: é uma faixa. E a faixa é larga.
Para construção nova — casa erguida do zero, da fundação ao telhado, sem contar o terreno:
Repare no “+” do padrão alto. Ele não é enfeite: é a fonte dizendo que acima de R$ 7.000/m² ainda existe obra, mas não existe mais referência publicada. Passar dali não significa que você está pagando caro — significa que você saiu do mapa e vai precisar comparar com obras parecidas, não com tabela.
Role a tabela para o lado →
| Tipo de obra | Padrão baixo | Padrão médio | Padrão alto |
|---|---|---|---|
| Construção nova | 1.800–2.500 | 2.500–4.000 | 4.000–7.000+ |
| Reforma completa | 1.200–2.000 | 2.000–3.500 | 3.500–5.500+ |
| Reforma parcial | 800–1.200 | 1.200–2.200 | 2.200–3.500 |
| Ampliação | 1.500–2.200 | 2.200–3.800 | 3.800–6.000+ |
Reforma completa é troca de elétrica e hidráulica, pisos, esquadrias e acabamentos — mexe em quase tudo, menos na estrutura. Reforma parcial é cosmética: pintura, revestimento, marcenaria e louças, sem abrir parede. Ampliação conta o m² da área nova, não o da casa inteira. Usar a faixa errada é o jeito mais rápido de chegar a uma conclusão errada com um número certo.
Este é o ponto onde quase toda comparação se perde. A faixa cobre material de construção e mão de obra. Só isso. Fica de fora:
Se você somar o terreno ao custo da obra e dividir pelo m², vai encontrar um número que não se compara com nada — nem com a tabela, nem com a obra do vizinho, nem com a sua própria obra do mês passado. O capítulo 3 é inteiro sobre isso.
As fontes registram São Paulo capital e região metropolitana entre 20% e 30% acima da média nacional. Aplicado à faixa do padrão médio em construção nova, isso leva R$ 2.500–4.000 para cerca de R$ 3.000–5.200.
Detalhe que importa
O ajuste de São Paulo é ele próprio uma faixa (20% no piso, 30% no teto), então a faixa ajustada fica mais larga que a original. Em São Paulo o dado é menos preciso, não mais. Para as outras regiões não existe fator publicado — e é mais honesto dizer isso do que inventar um multiplicador.
O insight
A faixa é larga porque o custo de obra é largo mesmo. Quem te entrega um número único e redondo está te vendendo confiança, não informação — e confiança sem informação é exatamente o que faz o dono descobrir o estouro tarde demais.
Passo concreto
Pegue a área da sua obra e o total que você já gastou (ou tem orçado), sem o terreno. Divida um pelo outro. Guarde esse número — ele vai ser usado em todos os capítulos seguintes.
Estação prática · Referência 2026
Entre R$ 800 e R$ 7.000+ por metro quadrado. O que decide onde a sua obra cai nessa amplitude não é o tamanho da casa: é o tipo de obra e o padrão de acabamento.
Reais por metro quadrado de área construída, material e mão de obra. A escala é a mesma nas quatro listas, então o comprimento das barras pode ser comparado de uma para a outra.
Opcional. Preenchendo, cada faixa também aparece em total da obra.
A faixa como as fontes publicam, sem ajuste.
Casa erguida do zero, da fundação ao telhado. O valor do terreno fica de fora — terreno é aquisição, não obra.
Troca de instalação elétrica e hidráulica, pisos, esquadrias e acabamentos. Mexe em quase tudo, menos na estrutura.
Pintura, revestimento, marcenaria e louças. Sem abrir parede, sem trocar instalação, sem tocar na estrutura.
Área nova acrescentada a uma construção que já existe: um quarto, uma suíte, um pavimento. O m² considerado é o da área nova.
O sinal de + marca teto aberto, e é por isso que essas barras se desfazem na ponta: acima dele ainda existe obra — o que acaba é o dado publicado. Para as regiões fora de São Paulo capital não existe fator de correção publicado que dê para aplicar com honestidade, e inventar um seria pior do que admitir a lacuna.
A calculadora compara o seu número com a faixa do seu tipo de obra e diz se ele caiu abaixo, dentro ou acima — e o que costuma explicar cada resultado. Sem cadastro e sem e-mail.
Os valores refletem a referência de 2026 e envelhecem: custo de material se move ao longo do ano, que é justamente o que o INCC mede. Quando estas faixas forem atualizadas, a data acima muda junto.
Onde o dinheiro vai
A pergunta: “para onde vai o dinheiro da obra?”
Quando alguém imagina uma obra, imagina cimento, tijolo e pedreiro. É por isso que a maior parte das planilhas de obra que circulam por aí começa na fundação — e é por isso que quase todas elas quebram nos primeiros três meses, que é justamente quando não há fundação nenhuma e o dinheiro já está saindo.
Numa obra residencial real que analisamos linha a linha, a distribuição do dinheiro até o início do canteiro foi esta: 70% terreno, 17% burocracia. Cartório, ITBI, escritura, prefeitura, alvará, projeto, ART. Sobraram 13% para o que qualquer pessoa chamaria de “obra”.
Numa planilha que só tem linhas de material e mão de obra, esses 87% caem todos num campo chamado “Outros”. O dono perde o controle exatamente na fase mais cara e mais caótica, e depois passa o resto da obra tentando lembrar para onde foi.
Uma obra residencial tem 18 frentes de gasto distintas. Não é preciosismo contábil: cada uma tem fornecedor diferente, momento diferente e forma de pagamento diferente.
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| # | Frente | Construção | Reforma |
|---|---|---|---|
| 00 | Terreno | — | — |
| 01 | Documentação e taxas | 2% | 2% |
| 02 | Projetos e consultoria | 6% | 5% |
| 03 | Serviços iniciais | 4% | 8% |
| 04 | Fundação | 5% | 0% |
| 05 | Estrutura | 15% | 0% |
| 06 | Alvenaria | 10% | 7% |
| 07 | Cobertura | 5% | 4% |
| 08 | Instalação elétrica | 7% | 10% |
| 09 | Instalação hidráulica | 12% | 12% |
| 10 | Revestimentos | 25% | 30% |
| 11 | Pintura | 6% | 10% |
| 12 | Esquadrias | 8% | 6% |
| 13 | Louças e metais | 4% | 6% |
| 14 | Marcenaria | 5% | 12% |
| 15 | Mão de obra | 40% | 45% |
| 16 | Equipamentos | 3% | 3% |
| 17 | Outros | 3% | 4% |
Você somou e deu mais de 100%. Está certo — dá cerca de 160%. O motivo é a linha 15: mão de obra é uma frente própria e ao mesmo tempo atravessa todas as outras. O pedreiro que assenta o porcelanato aparece em “Revestimentos” quando você olha por etapa da obra, e em “Mão de obra” quando você olha por natureza do gasto.
Isso não é erro de conta: é a razão de existirem duas perguntas diferentes. “Quanto custou revestir a casa” e “quanto custou o trabalho humano nesta obra” são perguntas legítimas, e nenhuma planilha de coluna única responde às duas.
Cuidado com o zero
Existe diferença entre uma frente que não pertence ao custo da obra (terreno) e uma que não existe naquele tipo de obra (fundação numa reforma). A primeira é uma ausência de categoria; a segunda é um valor real que por acaso é zero. Tratar as duas como “vazio” é o que faz um relatório dizer que a obra custou menos do que custou.
O insight
Duas linhas — mão de obra e revestimentos — respondem por cerca de dois terços do custo de construção. Se você só tiver energia para controlar duas coisas nesta obra, controle essas duas. Todo o resto somado erra menos do que um erro numa delas.
Passo concreto
Abra o seu controle atual, seja ele qual for, e conte quantas categorias ele tem. Se forem menos de dez, você não tem um controle: tem um caderno com um campo “Outros” engordando em silêncio.
Comparação
A pergunta: “como calcular o custo por m² da minha obra?”
Esta é a armadilha mais silenciosa do guia inteiro, porque ela não produz um erro visível. Produz um número — bonito, redondo, aparentemente correto — que leva a uma conclusão errada com toda a confiança do mundo.
Veja o que acontece com uma obra de 140 m²:
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| Recorte | O que entra | Total | Por m² | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Investimento total | Terreno + papelada + obra | R$ 720.000 | R$ 5.142 | “Padrão alto” |
| Sem o terreno | Papelada + obra | R$ 420.000 | R$ 3.000 | “Padrão médio” |
| Só a obra | Material + mão de obra | R$ 378.000 | R$ 2.700 | “Padrão médio” |
O primeiro recorte diz que você está construindo padrão alto e gastando muito. O terceiro diz que você está confortavelmente no meio da faixa do padrão médio. É a mesma obra, no mesmo dia. A diferença inteira é o que foi somado antes de dividir.
E o recorte errado é o mais fácil de produzir, porque é o que sai naturalmente de quem anota tudo numa coluna só: você lançou o ITBI, lançou a corretagem, lançou o cimento, somou e dividiu pela área. Ninguém errou uma conta — a conta é que era outra.
A separação que resolve isso é simples e cabe numa frase: existem gastos que não são obra, gastos que são obra mas não têm canteiro, e gastos de obra propriamente dita.
Por que a comparação exige isso
O CUB e as faixas publicadas medem material e mão de obra. Comparar um número que inclui terreno com uma referência que não inclui terreno não é uma imprecisão — é comparar duas grandezas diferentes e chamar o resultado de diagnóstico.
Toda obra tem aquele lançamento que não se encaixa em lugar nenhum. A tentação é criar um balde “diversos” e mandar tudo para lá. Existe uma regra melhor: gasto de classificação desconhecida deve cair dentro do custo da obra, não fora dele.
O motivo é assimétrico. Se você joga um gasto desconhecido para fora do custo, seu R$/m² fica menor do que a realidade e você se sente melhor do que deveria. Se joga para dentro, o número fica um pouco pessimista e no máximo você investiga. Entre errar para o alarme e errar para o alívio, erre sempre para o alarme.
O insight
Quase todo número de custo por m² que circula em grupo de WhatsApp está somando coisas diferentes — e é por isso que eles nunca batem entre si. Antes de aceitar a comparação de alguém, pergunte uma coisa só: o terreno está aí dentro?
Passo concreto
Pegue o número que você guardou no capítulo 1 e refaça a conta tirando terreno, ITBI, escritura, corretagem e honorários. Se o número mudou muito, você acabou de descobrir por que sua obra parecia mais cara do que é.
Propostas
A pergunta: “como comparar orçamento de pedreiro ou empreiteiro?”
Todo mundo sabe que deve pedir três orçamentos. Quase ninguém sabe o que fazer quando os três chegam, porque eles nunca chegam comparáveis. Um veio num papel com três linhas. O outro veio por áudio no WhatsApp. O terceiro veio num PDF caprichado com um valor final e nenhuma abertura.
Colocados lado a lado, o instinto manda olhar o total e escolher o menor. É a decisão errada com mais frequência do que a certa.
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| Proposta | Valor | Material | Prazo | Reparos |
|---|---|---|---|---|
| Pedreiro A | R$ 38.000 | Por sua conta | Não informa | Não menciona |
| Empreiteira B | R$ 52.000 | Incluso | 45 dias | 90 dias |
| Pedreiro C | R$ 41.000 | Parcial | “Uns 2 meses” | Não menciona |
A proposta A é R$ 14.000 mais barata que a B. Mas o material desse serviço custa, digamos, R$ 19.000 — e agora você é quem compra, transporta, confere, guarda e assume a sobra. Somando, A custa R$ 57.000 e ainda transfere para você o trabalho de comprar. A proposta mais cara era a mais barata.
Isso não é malandragem do pedreiro A. Ele orçou o que ele faz: mão de obra. Você é que comparou duas coisas diferentes.
A correção é anterior às propostas: você escreve a lista, e os três orçam a mesma lista. Uma folha, itens numerados, e a instrução de que o valor seja aberto por item. Quem se recusa a abrir já respondeu alguma coisa.
O que precisa estar na sua lista, sempre:
O aditivo é onde a obra estoura
Raramente o combinado é rompido. O que acontece é que surge algo que não estava na lista — e como não estava na lista, vira aditivo, e aditivo não tem concorrência: você já está com aquela equipe no canteiro. Cada item que você antecipa na lista é um aditivo que não vai existir.
Quando você fecha, registre qual proposta venceu e guarde as outras duas. Elas não servem só de histórico: servem de referência de preço quando o mesmo serviço aparecer de novo, e servem de argumento se o escolhido pedir reajuste no meio do caminho.
E guarde a lista que você escreveu. Ela é o contrato informal do serviço — no dia em que houver discussão sobre o que estava combinado, ela é a única coisa que os dois lados leram antes de começar.
O insight
Você não está comparando preços. Está comparando escopos que por acaso têm preço. Enquanto a lista for de quem vende, cada proposta descreve uma obra diferente — e a mais barata é sempre a que prometeu menos.
Passo concreto
Antes do próximo serviço, escreva sua lista de itens numa folha. Mande a mesma folha para os três. É um trabalho de vinte minutos, e poucos rendem tanto nesta obra.
Fluxo de caixa
A pergunta: “como planejar os pagamentos da obra?”
Quase todo controle de obra sabe responder o que já saiu. Poucos sabem responder o que vai sair. E a obra não quebra pelo que já saiu — ela quebra na semana em que três coisas vencem juntas e o dinheiro que ia cobrir uma delas já foi para outra.
A pergunta certa não é “quais boletos eu tenho”. É “sobra dinheiro?”. E a conta que responde isso tem três parcelas:
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| Linha | Valor | Conta |
|---|---|---|
| Orçamento da obra | R$ 420.000 | — |
| Já gasto | R$ 297.000 | subtrai |
| Saldo aparente | R$ 123.000 | o número que engana |
| Agendado a vencer (30 dias) | R$ 31.000 | subtrai |
| Vencido e não pago | R$ 12.000 | subtrai |
| Sobra real | R$ 80.000 | o número que decide |
Os R$ 123.000 do saldo aparente são o número que faz o dono autorizar a marcenaria. Os R$ 80.000 são o número que devia ter decidido.
Vencido continua contando. A tentação é tirar o atrasado da conta porque “esse eu resolvo depois”. Dívida atrasada é dinheiro que vai sair de qualquer jeito, e frequentemente sai com juros. Tirá-la produz um alívio falso justamente quando a obra está apertada.
Pago não conta duas vezes. Um pagamento que já virou gasto não pode continuar aparecendo como comprometido — senão você subtrai o mesmo dinheiro duas vezes e passa a obra inteira achando que está pior do que está. Achar que está pior é menos perigoso do que o contrário, mas ainda é um número errado, e número errado corrói a confiança no controle todo.
Valor e contagem vêm da mesma janela. “R$ 31.000 comprometidos em 3 pagamentos” só é verdade se os três couberem na mesma janela de 30 dias. Se dois vencem em setembro, a frase junta um valor de uma janela com uma contagem de outra — e é o tipo de erro que ninguém percebe porque as duas metades estão certas separadamente.
Quando um fornecedor oferece “3× de R$ 4.200”, registre três compromissos independentes de R$ 4.200 cada, com datas próprias. Não registre R$ 12.600 divididos por três.
Parece a mesma coisa e não é. É assim que o boleto chega — um documento por parcela, com valor exato. Dividir um total produz centavos que não batem com documento nenhum, e no dia da conferência você vai passar meia hora atrás de sete centavos. Além disso, uma parcela pode ser renegociada, adiada ou cancelada sozinha; uma fração de um total, não.
Um detalhe de calendário
Parcela mensal que cai dia 31 precisa grudar no último dia do mês: 31 de janeiro mais um mês é 28 de fevereiro, não 3 de março. Todo sistema que erra isso empurra vencimento para depois e mostra um mês com menos compromisso do que ele tem.
O insight
Obra quase nunca quebra por gastar demais no total. Quebra por gastar na ordem errada — comprando o acabamento antes de fechar a laje, e descobrindo em agosto que o dinheiro da estrutura virou porcelanato em maio.
Passo concreto
Liste hoje, num papel só, tudo que vence nos próximos 30 dias — inclusive o que já está atrasado. Subtraia do seu saldo. Esse é o número com o qual você pode decidir alguma coisa.
Registro
A pergunta: “o que eu preciso guardar da obra?”
Existe um dia, na sua obra, em que a hidráulica fica exposta e visível. Cano por cano, junta por junta, tudo à vista. Esse dia dura poucas horas. Depois disso a parede fecha e aquela informação some por vinte anos — até a manhã em que aparece uma mancha de umidade no rodapé da sala e alguém pergunta “por onde passa o cano aí?”.
Uma foto de dois segundos, tirada naquele dia, responde. Sem ela, a resposta custa uma parede quebrada.
Este é o capítulo menos empolgante do guia e um dos de maior retorno. Registrar obra não é burocracia: é a forma de o futuro ter acesso ao presente.
Uma regra de campo
Fotografe com algo que dê escala no quadro — uma trena aberta, uma tomada, uma porta. Foto de detalhe sem referência de tamanho é bonita e inútil: seis meses depois ninguém sabe se aquilo tinha dez centímetros ou um metro.
Um gasto tem seis informações, e todas as seis só existem juntas no dia: quanto, quando, o quê, de quem, de qual conta saiu, e por qual forma foi pago. Passada uma semana, você ainda lembra do valor. Passado um mês, lembra que houve. Passados três meses, o gasto vira uma linha no extrato que ninguém consegue explicar.
É por isso que o buraco no registro dificilmente é preenchido depois. Duas semanas sem lançar não é um atraso de duas semanas: é um pedaço da obra que corre o risco de ficar sem história.
Nota fiscal
A nota é o que sustenta garantia de material e de serviço. Sem ela você tem um gasto, não um direito. Quando o fornecedor não emite — o que acontece com frequência em serviço de pequeno porte — registre pelo menos um recibo com nome, CPF ou CNPJ, data, valor e a descrição do que foi feito. Não é a mesma proteção, mas é infinitamente melhor do que um Pix sem descrição.
Guarde o nome e o contato de cada profissional ao lado do serviço que ele executou. Não é para o caso de dar errado — é para o caso de dar certo. O eletricista bom some do seu telefone em oito meses, e você vai passar dois dias pedindo indicação para achar alguém que já esteve na sua casa e conhece a instalação inteira.
O insight
Você não registra a obra para acompanhar a obra. Registra para o dia em que algo vazar, para o dia em que o comprador pedir o histórico, e para o dia em que a fabricante do produto perguntar quando foi instalado. O registro é uma carta que você escreve para si mesmo daqui a alguns anos.
Passo concreto
Hoje, antes de dormir: fotografe a frente de serviço que está aberta agora. Se a parede estiver aberta, fotografe a parede aberta. Amanhã pode ser tarde — literalmente.
Alerta
A pergunta: “como saber se estão me enganando na obra?”
Vamos começar pela conclusão, porque ela contraria o que você provavelmente espera de um capítulo com esse título: na maioria das vezes em que o custo está acima da faixa, ninguém está te enganando.
O motivo é quase sempre o mesmo. Você acha que escolheu padrão médio. Escolheu porcelanato de formato grande no banheiro, metal monocomando na cozinha, marcenaria planejada em três ambientes. Cada decisão parecia pequena e razoável no dia. Somadas, elas são a definição de padrão alto — e a faixa está te dizendo isso, não te acusando de nada.
Por isso, antes de desconfiar de alguém, faça uma verificação: o valor que você está pagando cabe na faixa de algum outro padrão de acabamento? Se cabe, a explicação mais provável é essa, e não roubo.
Como ler o próprio número
Acima do teto do padrão médio, mas dentro do padrão alto: quase sempre é o acabamento escolhido. Acima do teto do padrão alto: você saiu do que a referência conhece, e aí vale investigar de verdade. Abaixo do piso do padrão baixo: cuidado — pode ser negociação excelente, mas costuma ser gasto que ainda não apareceu.
Estes não são sobre valor total. São sobre como o dinheiro está sendo pedido:
A pior versão dessa conversa começa com uma acusação. Ela põe a pessoa na defensiva, e você perde tanto a informação quanto a relação — no meio de uma obra que ainda depende dela.
A versão que funciona é levar o número, não a suspeita: “fiz a conta do que já saiu e deu R$ 4.900 por metro. A referência para o que a gente combinou fica entre R$ 2.500 e R$ 4.000. Queria entender comigo onde está a diferença.”
Isso não acusa ninguém e é difícil de desconversar. Se a diferença tem explicação — e frequentemente tem — você vai ouvi-la. Se não tem, o silêncio também é uma resposta.
Onde este guia para
Trinca em elemento estrutural, laje que flexiona, recalque de fundação, infiltração persistente: isso não é assunto de tabela nem de conversa. É caso de engenheiro civil com ART ou RRT emitida, na hora. Nenhuma comparação de custo substitui um laudo, e nada neste guia deve ser lido como avaliação técnica de segurança.
O insight
O padrão que você acha que escolheu não é o padrão que você escolheu. Antes de desconfiar de alguém, desconfie da sua própria lista de acabamentos — ela decidiu mais dinheiro do que qualquer negociação que você vai fazer nesta obra.
Passo concreto
Compare o seu R$/m² com as três faixas do seu tipo de obra, não só com a que você acha que é a sua. Se ele couber em outra, você encontrou a explicação antes de encontrar um culpado.
Arquivo
A pergunta: “o que fazer com tudo isso depois que a obra termina?”
No dia em que a obra termina, a sensação é de fim. Você quer fechar a planilha, apagar o grupo do WhatsApp e não pensar mais em cimento pelo resto da vida. É compreensível e é caro.
Porque o registro de uma obra tem uma característica cruel: ele não vale quase nada durante a obra, e vale muito depois — em quatro momentos que ninguém antecipa.
A garantia. Impermeabilização, telhado, esquadria, equipamento — cada um com prazo próprio, contado da instalação. No dia do problema, a pergunta é sempre a mesma: quando foi instalado e por quem? Sem nota e sem data, você tem um defeito. Com nota e data, você tem um direito.
A venda. Duas casas iguais, no mesmo preço. Uma vem com a pasta: quem fez a elétrica, qual a marca da impermeabilização, quando o telhado foi executado, as fotos da instalação antes de fechar a parede. A outra vem com “foi tudo feito direitinho”. A primeira negocia melhor, e negocia mais rápido — porque a dúvida é o que faz o comprador pedir desconto.
A próxima obra. Toda casa tem uma segunda rodada: a suíte que virou escritório, o telhado daqui a dez anos, o banheiro que ninguém aguenta mais. Chegar nesse dia sabendo por onde passa cada cano, qual o rejunte usado e quanto custou da última vez é a diferença entre reformar e explorar.
O sinistro. Seguro residencial pede comprovação. Registro de obra é comprovação.
Role a tabela para o lado →
| # | O quê | Serve para |
|---|---|---|
| 1 | Fotos de instalação antes de fechar parede e piso | Toda manutenção futura |
| 2 | Notas e recibos, com data e fornecedor | Garantia e imposto |
| 3 | Contatos de quem executou cada frente | Manutenção e a próxima obra |
| 4 | Projetos e as alterações feitas em campo | Reforma e venda |
| 5 | Documentação: alvará, habite-se, averbação | Venda e financiamento |
| 6 | O custo final por frente | Orçar a próxima com dado real |
| 7 | Antes e depois | Você. E é o que você mais vai olhar. |
Quando a última nota entra, você finalmente tem uma coisa que não existia em lugar nenhum antes: o custo real da sua obra, por frente, com data e fornecedor. Não uma estimativa, não uma referência de mercado — o número verdadeiro, do seu terreno, com os seus fornecedores, na sua cidade.
Esse número é a melhor referência que você vai ter para a próxima decisão de obra. Ele vale mais do que qualquer tabela deste guia, porque as faixas do capítulo 1 descrevem obras em geral e essa descreve a sua.
O insight
Ninguém termina uma obra achando que vai esquecer. Em dois anos, a marca do rejunte, o nome do bombeiro e quanto custou o telhado dificilmente ainda estarão na sua cabeça — a não ser que algo tenha guardado por você.
Passo concreto
Escolha hoje onde esse arquivo vai morar — e que não seja a galeria do celular, que troca a cada dois anos, nem um grupo de WhatsApp, que some quando alguém sai.
Meu Tetto
Cada capítulo deste guia descreve um controle que dá trabalho manter à mão: a faixa de referência que se recalcula a cada gasto, o plano de contas com as 18 frentes, o comprometido dos próximos 30 dias, a foto amarrada à etapa, o arquivo que continua seu depois que a obra acaba.
É exatamente isso que o Meu Tetto faz. E a calculadora de custo por m² fica aberta, sem cadastro — o número não é o que você paga para ver.
Calcular o custo da minha obrameutetto.com.br
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O guia inteiro também está aqui na página, aberto, sem cadastro. O e-mail é só para você levar o arquivo.